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Inspiração Digital

Texto (parcial) da 1ª coluna Mundo Digital, publicada em 1 de Maio de 2012 no Suplemento Tecnologia e Gestão, do Jornal de Angola, com o título “Vida, Bits e Milionários”.

Há cerca de dois anos, dois jovens amigos, um norte-americano, Kevin Systrom, então com 27 anos e um brasileiro, Mike Krieger, então com 24 anos, desenvolveram, nos Estados Unidos, uma aplicação para o iPhone chamada Instagram, actualmente já disponível para telemóveis Android, como a série Galaxy da Samsung.

A aplicação, inicialmente disponibilizada ao público através da App Store do iTunes em Outubro de 2010, permite usar o telemóvel para tirar fotografias e aplicar desde logo um filtro para lhe dar um certo estilo – existem muitos filtros que permitem obter diversos tipos de fotografias visualmente apelativos. A inspiração para a obtenção do formato e do aspecto final das fotografias foram as “velhinhas” fotos instantâneas Polaroid.

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exemplo de foto Instagram (Alexandra Fragoso)

A aplicação permite ainda partilhar as fotografias usando a Internet, nomeadamente com um círculo de amigos (é uma espécie de Facebook simplificado, só para fotografias, havendo muita gente que usa o Instagram como substituto completo do Facebook) e está concebida de raiz para funcionar em “plataformas móveis” (smartphones, media players de bolso, tablets).

Os jovens criaram uma empresa para explorar as potencialidades comerciais da aplicação, tendo obtido para tal algum investimento para arrancar. No fim do passado mês de Março, com menos de 10 empregados, tinham cerca de 30 milhões de utilizadores a mandar para a Internet cerca de 5 milhões de fotos por dia.

Acontece que o Facebook sendo anterior à actual proliferação dos smartphones (telemóveis com processadores poderosos que permitem ligação à Internet e correr aplicações tais como agenda pessoal, agregadores de notícias ou videojogos) não foi concebido de raiz para funcionar neste tipo de gadgets e os seus jovens fundadores e não tão jovens gestores ainda não encontraram uma forma airosa e funcional de facturar neste contexto. Assim, e apesar de estarem à frente de uma empresa bastante nova (o seu fundador tem 26 anos), considerada uma das empresas mais valiosas do mundo, com um valor de mercado estimado em cerca de 100 mil milhões de dólares, que continua a crescer a um ritmo alucinante (a caminho dos mil milhões de utilizadores), os gestores do Facebook sentiam-se ultrapassados pelos acontecimentos.

Da avaliação que fizeram para encontrar as melhores hipóteses de aumentar e sustentar o seu potencial de negócio nas plataformas móveis, a melhor opção que encontraram foi comprar a Instagram, a tal empresa que desenvolveu uma aplicação para estilizar e partilhar fotografias digitais usando o iPhone, criada por 2 jovens há 2 anos, e com menos de 10 empregados, pela bagatela de mil milhões de dólares, sendo que tudo isto aconteceu no mesmo ano em que a histórica Kodak declarou falência, apesar de possuir activos avaliados em cerca de 750 milhões de dólares. Ironias.

Só uma vaga de fundo de mudança, nesta época em que vivemos, permite explicar que projectos como a Instagram sejam tão valorizados apesar de na essência não permitirem mais do que personalizar e distribuir fotografias a um conjunto de pessoas. Esta mudança avassaladora, embora por vezes difícil de identificar, leva-nos para um mundo radicalmente diferente, um “admirável mundo novo” – o mundo digital.

Esta mudança é por vezes difícil de ser apercebida, levando-nos a dar conta dela apenas depois de ter acontecido e normalmente com admiração (“como é que eu não vi isto a acontecer?!”) porque se vai concretizando dia a dia e a vamos vivendo paulatinamente, ainda que inexoravelmente – “alteração a alteração” “novo modelo de telemóvel a novo modelo de telemóvel”, etc.

(conclui logicamente)

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